Fechou a porta sem ao menos olhar para trás, nem conferiu se havia guardado as chaves. Desespero quase odioso. Jogou a mochila no chão. Arrancou as sandálias dos pés e desabou no sofá bagunçado. As almofadas mofadas e o cinza no céu visto da fresta da janela eram o retrato daquele domingo, chuvoso e triste. Algumas roupas sujas espalhadas com aquele perfume ainda impregnado aumentavam ainda mais a sensação de saudade. Tentou um banho, mas seu corpo ainda quente não conseguia esquecê-la, fingiu ver um filme, mas seu desejo não conseguia deixá-la ir. E o gosto ainda continuava lá, não fugiu ao cigarro nem ao gole de coca-cola sem gás que encontrou na geladeira, queimava a garganta, ardia os poros e todos os sentidos. Optou pela música. O resto de tarde seguia como resto de todo resto. Seu corpo cansado e solitário havia se tornado também a sobra de algo estranhamente sublime, mas complicado. Deixou que o dia se fosse, fez com que a casa não tivesse luz e tentou adormecer. Sonhou. Lá tudo parecia ser bem mais fácil.
1 comentários:
Sonhar? Até quando? E a realidade, o aqui e o agora, se pelo menos existisse espaço em você pra ela. Aí sim, tudo seria mais fácil.
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