quinta-feira, 29 de setembro de 2011

E. T. A.

O quarto estava escuro e cama vazia dos dois. Talvez ela chegasse e não o encontrasse lá.
Mas ele queria esperá-la, recebê-la, possuí-la.
Não era possível.
Ele então fechou os  olhos e desenhou o mundo inteiro pra ela, um mundo deles, o dos seus sonhos: Ali ele a esperava na sacada, ansioso, com os passos atrapalhados entre o abraço dela e a porta, ajudaria com as sacolas, escutaria pacientemente todas as aventuras e ririam juntos até do que não tinha graça porque estariam escandalosamente felizes por terem um ao outro.
O banho frio à dois, o embrulho com algum lanchinho legal que ela comeu na estrada e quis dividir com ele, o resto da coca-cola sem gás que havia ficado na geladeira, os dois cigarros e os dois. A casa cheia deles. Por todos os cantos as vozes, os passos, as notícias, os planos, a saudade ainda não gasta, seus corpos se esbarrando quase que propositadamente para se tocarem e se sentirem a todo tempo.
Depois o quarto, o fim das luzes e das roupas. Enfim o sono juntos, enlaçados, emaranhados, exaustos da falta que sentiram um do outro.
Se amarariam assim, em silêncio. Apenas a cabeça dela sobre o peito dele que, delicadamente, lhe tocaria os cabelos.
Mas nada seria possível e ele abriu os olhos perdido e angustiado.
Enfiou uma das mãos no bolso e percebeu que as chaves dela ainda estavam lá, voltou na casa correndo e sem deixar qualquer outro vestígio colocou um papelzinho sob o travesseiro dela. Havia apenas "E. T. A.", ela saberia que significa "Eu te amo" e isso era tudo que ele precisava dizer.

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